O ETERNO RETORNO DE QFWFQ.
A Companhia das Letras, que edita aos poucos as obras completas de Italo Calvino, está lançando Todas as Cosmicômicas, compilação de contos que envolvem Qfwfq, personagem divertidíssimo, que presenciou a origem do Universo e que nos descreve eventos insólitos como o Big Bang, o nascimento e a morte da lua, a extinção dos dinossauros, o surgimento e a evolução das espécies, entre outros baratos. Qfwfq é tão hilariamente onipresente através dos tempos que lembra até a Dercy Gonçalves dando entrevistas irônicas sob a pirâmide do próprio túmulo.
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Trata-se, em parte, de um relançamento de contos já publicados em As Cosmicômicas, só que acrescidos de outros, inéditos no Brasil. Aqui estão finalmente reunidos os impressionantes contos T=0, verdadeiras obras-primas de simetria de Calvino. Em conjunto estes contos podem ser vistos até como uma espécie de paródia típica do Oulipo à Matemática, às Ciências e às Pseudo-Ciências, como o Estruturalismo. Pós-modernidade é isso.
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T=0 me parece o livro mais kafkiano de Calvino. Em O cavaleiro do balde ou Graco, o lenhador, de Kafka, o tempo não se move. E eternamente congelados no interstício entre dois momentos distintos, seus personagens, situam-se num lugar-nenhum, uma espécie de limbo espaço-temporal, onde refletem sua condição fantástica de perpétuos exilados. Eis a linhagem de onde provêm os contos T=0.