Pequena reflexão sobre o amor e o silêncio
George Steiner, grande leitor de Kafka, diz-nos que não há nada mais seguramente destrutivo para um ser humano que o silêncio. Se considerarmos o silêncio em relação ao amor manifesto, por exemplo, nós o entenderemos como a negação desse amor. Aquilo que não tem expressão não existe para nós. Concordo, mas penso que exista um silêncio também que é pura timidez e uma timidez que atue como uma espécie de terror sagrado diante do objeto amoroso. O amor que não ousa dizer o seu nome e que soa tão contrário à palavra poética, permitam-me defendê-lo também. Quantas vezes ele não é mais intenso que o amor jurado em palavras dúbias, sedutoras, muitas vezes insinceras? A falação amorosa, a jura de amor, o desejo e a paixão declaradas são, a meu ver, a explicitação ou a reafirmação de algo que já foi e está sutilmente sugerido a cada gesto, a cada toque, a cada olhar (manifestações silenciosas do amor). Os poetas afirmam que sua poesia é seu sentimento, não nego isso, mas como Fernando Pessoa afirma, o poeta é um fingidor, sei que de fato poemas despertam emoções variadas nos que os lêem (da mais apaixonada à mais fria indiferença), mas um poema é, para seu autor, a despeito do alegado sentimento, acima de tudo, engenho, astúcia, jogo, sedução. .
Um poema é menos expressão do amor que lábia de sedutor, pois o poeta é aquele que arma a teia de palavras com uma intenção disfarçada, ele tece uma rede invisível para capturar a presa, as palavras prendem, eis a contrapartida para o silêncio destrutivo, pois nada ata, enlaça, junta mais fimemente dois seres humanos que a linguagem. João Cabral de Melo Neto considerava os sentimentos vagos, informes demais para servirem como matéria poética, e sua poesia nascia de um silenciar os sentimentos, tornando claramente nítido o mundo que nos é apenas visível. Ele consegue ser ainda mais sensível abrindo mão dos alegados sentimentos de tantos maus poemas por aí. Oscar Wilde lembra-nos que toda má poesia é sincera.
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A situação do amor manifesto me parece ainda mais complicada na era do amor virtual, em que distâncias gigantescas separam os amantes, mas as palavras surgem instantâneas na tela, afirmando uma presença que não está ali. Kafka dizia que trocar cartas era um diálogo enganoso, pois nós "morreremos de sede", enquanto "as palavras serão bebidas no caminho por fantasmas". A instantaneidade da era da internet não me parece reduzir essa sensação de solidão, mas antes agravá-la. Somos impulsionados por uma sensação ilusória de simultaneidade através da internet, por meio dos programas de trocas de mensagens, mas na verdade dialogamos com fantasmas, cientes de que o desejo nasce de palavras e imagens, ainda que pareçam meros simulacros do encontro amoroso: novamente aqui é a rede, a astúcia o jogo que voltam a ser tecidos, empregados e jogados. mas me pergunto onde entram a timidez amorosa, o toque delicado das mãos ou um olhar cúmplice e poderoso, tão necessários ao amor, nesse reino feito de palavras emergentes e urgentes? Com que sutileza poderíamos expressar, via internet, orkut, msn ou e-mail, tudo aquilo que jamais expressaríamos usando as meras palavras?