SANGUE E ÁGUA
Estou completamente chapado com a leitura da obra-prima de Cormac McCarthy, Meridiano Sangrento. O livro descreve uma horrenda carnificina do passado americano: o massacre dos índios e dos aldeões mexicanos que viviam na fronteira do Texas com o México por um grupo paramilitar sanguinário. Mas, Meridiano Sangrento, apesar da violência repulsiva a que nos expõe, compensa como leitura por sua linguagem sublimemente elevada - que exibe um tom épico invejável e alcança uma dimensão mítica apocalíptica tão desconcertante que leva o grande crítico Harold Bloom a compará-lo com Moby Dick de Melville.
Melville, ao criar Ahab e a baleia branca, por sua vez, fez a melhor releitura existente em toda Literatura para o clássico Os Lusíadas, de Camões, um dos livros mais violentos já escritos, descrevendo a saga épica-mítica dos portugueses como uma viagem expansionista sem paralelos na História. Na visão de Melville, que leu Camões, a saga de perseguição a Moby Dick transformava-se numa busca visionária apocalíptica que simbolizava o destino dos EUA como nação. Nada me parece retratar melhor a ultraviolência, que constitui a essência da cultura, da expansão e da legitimação do poder americano que esse romance do século XIX. Cormac, como legítimo herdeiro de Melville e Faulkner, dá continuidade à linhagem de grandes escritores que discutem a violência americana, e o faz em termos negativos ou niilistas, mas não gratuitos, absolutamente impactantes, verdadeiros, atuais, e ainda por cima esteticamente compensadores.
Leio, com pesar e desconfiança, que Hollywood anuncia a adaptação cinematográfica de Meridiano Sangrento para 2007, dirigido por Ridley Scott, que já nos deu nos anos 80 o belo Blade Runner. O cineasta inglês Ridley Scott desde Gladiador vem se destacando ao filmar sagas históricas como adaptações épicas do império americano. A filmagem de Meridiano Sangrento virá então como o fecho de uma trilogia, que englobava Gladiador e Cruzada, filmes a meu ver, fracos. O que ponho em dúvida é se dá para filmar tantas atrocidades como as descritas por Cormac sem que a coisa pareça uma autoparódia sinistra. Meridiano Sangrento é tão absolutamente violento que uma adaptação cinematográfica fiel exigiria um Sam Peckinpah multiplicado por Quentin Tarantino elevado à enésima potência do Pasolini de Saló - os 120 dias de Sodoma, e o resultado final nas telas provocaria desmaios em qualquer platéia civilizada. A adaptação cinematográfica, lógico, deve aguar esse sangue todo. Arrisco o palpite de que não renderá boa coisa.