Ouvidos para não ouvir
Um amigo me envia às três da madrugada uma mensagem de texto via celular perguntando quais são seus três maiores defeitos. Eu poderia responder mal humorado que ligar às três da madrugada para alguém já é um grave defeito, não sou do tipo que pega no sono rápido.
Respondo a meu amigo que o seu primeiro defeito é o de não ouvir nunca os outros. Ele é quase totalmente incapaz de ouvir, apesar de não ter deficiência auditiva alguma. Se alguém tenta lhe contar uma história, por exemplo, ele interrompe a pessoa no meio e começa a contar alguma outra coisa. Meu amigo age como se não soubesse que os outros têm algo mais que palavras por trás de suas vozes. Como se elas não gostassem de serem ouvidas para estabelecer um laço com o outro. A meu amigo só interessa a sua própria voz, os seus assuntos, a sua verdade pessoal e intransferível. Ele não quer permitir ao outro estreitar laços ou arriscar intimidades. Ao escutar a fala dos outros logo dá de ombros, desconversa e muda de assunto.
Grave problema a meu ver. Já que nega a possibilidade do diálogo. E dá uma impressão de indiferença por tudo que o outro possa querer relatar, comentar, discutir, afirmar, narrar ou questionar. Penso em algo que possa me anular mais do que silêncios impostos por amigos e mal consigo. Estamos empolgados contando um fato, uma história, uma anedota, o desdobrar de um acontecimento, um sonho, um crime, aí vem o nosso amigo e nos emudece porque ele é o único que quer fazer jorrar as palavras, e estas se sobrepõem às nossas, esmagam-nas, e nos vemos forçados a pôr humildemente as nossas palavras de lado, vencidas e recusadas.
O defeito do meu amigo pode ser traduzido como impaciência. Ele atalha o discurso alheio porque quer apressar a conversa, quer que se chegue urgente a um ponto de convergência que são suas próprias opiniões já estabelecidas, ele impõe sua fala porque não quer perder um único segundo pensando em algo fora da órbita de seus próprios pensamentos.
Além deste defeito lembro de ter enumerado dois outros também relevantes para meu amigo, e enviei a resposta rapidamente, digitando uma mensagem na penumbra do quarto. Até hoje ele cita essa minha pronta-resposta, que o fez pesar bastante cada um dos defeitos que lhe apontei. Não sei se consegui alertá-lo no meio da madrugada (ele trabalha de plantão) talvez só tenha aberto uma mínima fresta na grande muralha da China, mas talvez um dia o meu amigo saia da sua imensa solidão e consiga ouvir as muitas vozes do outro lado.