RELENDO BORGES
Os escritores contemporâneos são todos tardios. Chegaram atrasados: perderam a última festa, que foi o Modernismo, um verdadeiro e grandioso banquete, como registra o eminente Roger Shattuck. O Humanismo há muito descansa em paz, enterrado como aquela senhora da peça de Beckett, que ia sendo gradativamente tragada pela areia. Esse sentimento de chegar tarde sempre acompanhou Borges, cujas obras tentavam compensar o seu atraso literário despejando no leitor um oceano de erudição. Borges vivia para os livros e para a mãe, com quem morou até a morte dela e só esboçou vida amorosa na velhice, com sua secretária Maria Kodama, mocra tal que só um cego mesmo. Em suas últimas entrevistas, Borges deu vazão ao mais puro ressentimento. Ser tardio o tornava uma figura deslocada no tempo e no espaço, uma fantasmagoria quase tão imponente e improvável quanto o falecido pai de Hamlet assombrando o reino da Dinamarca. Argentino, queria ser e foi enterrado na Suíça, país curioso, que, na sua frase famosa, foi o único a optar pela Racionalismo. Hoje sabemos que os bancos suíços embolsaram dinheiro nazista, pilhado de judeus mortos na Segunda Guerra. E o tal Racionalismo acabou posto em cheque pelas teorias do inconsciente de Freud, o velho pai da psicanálise, que por sinal Borges desprezava.
Borges foi o anti-Proust por excelência. Jamais escreveu um romance e tinha horror a tramas “psicológicas”, informes a seu ver. Emulava Kafka e admirava Mallarmé, e como ambos, parece que preferia literatura a tudo, sexo inclusive. Foi contemporâneo de Neruda, que na época ocupava o cargo (político) de maior poeta latino-americano da terra. Borges, que era um bom poeta, jamais alcançou a notoriedade de Neruda nesse terreno, apesar de se opor a Perón (que odiava), ele acabou famoso pelos contos em estilo de ensaísta e pelos ensaios, verdadeiros contos. Num de seus melhores, O Aleph, Borges reserva gozações impagáveis a Neruda e faz pouco da obra máxima do rival, o longo Canto General. Contudo, a despeito do pouco-caso de Borges, Neruda legou muitas influências. Elisabeth Bishop, a poetisa norte-americana, confessou que detestava Neruda, mas se dizia contagiada pelo surrealismo de seus poemas.
O grande crítico Harold Bloom diz que seu conto favorito de Borges é o policialesco “A Morte e a Bússola”. Mas o que eu mais admiro chama-se “As Ruínas Circulares”. Um primor narrativo, estético e metalinguístico. Sempre que o releio, sinto o mesmo impacto da primeira vez e acabo gratificado pelos intensos prazeres que proporciona.