
HOJE E ONTEM, ANA HATHERLY
Leio cada vez mais poetas portugueses modernos ou contemporâneos e acho vergonhoso que aqui no Brasil “deixemos os portugais à míngua”, ou seja, que leitores e editores de livros praticamente perpetuem a ignorância dos esplendores poéticos de uma Adília Lopes, de um Antonio Ramos Rosa, de uma Ana Hatherly. Quando muito o quarteto Camões-Eça-Pessoa-Saramago é lido e relançado. Portanto gostaria de falar da poetisa Ana Hatherly, que “descobri” quase acidentalmente, catando o que ler em uma livraria de shopping. Lançada em 2005 pela excelente Coleção Ponte Velha, da editora Escrituras, a coletânea A idade da escrita e outros poemas percorre alguns trechos do trajeto de Hatherly de 1959 até 2002. Para um neófito ávido por poesia (como eu) equivaleu a vislumbrar um regato de água fresca em pleno deserto. Seus poemas e textos em prosa poética abordam a temática amorosa sem clicherias, recamados que estão de despudorados experimentalismos barrocos. (Hatherly também é considerada abre-alas do Concretismo além-mar).
Sem mais-mais vamos a um fragmento de Ana: "A morte é um estado realmente sórdido/ por isso a cobrimos de toda fantasia/ inventando mitos de passagem./ Mas a morte é mesmo suja/ pornográfica/ expressionista/ com seus esgares/ odores/ desfazeres.// A arte é o travão que retarda/ a brutal presença da morte nos vivos."
Destaco também a relação profunda da poetisa com as artes plásticas. E reproduzo aqui um dos textos curtos do volume que me fez pensar na voragem do(s) nosso(s) tempo(s), em contrastes de perenidade e desintegração: "A consolação da escrita. Penso em Boécio escrevendo no limiar do desaparecimento mas acreditando na virtualidade dum real futuro. No meu século especulamos sobre a virtualidade do real de nenhum futuro. Destruction is fun dizia um menino ontem na TV falando dos seus videogames."


















